Nem Tudo que Reluz é Ouro: o Museu do Fracasso e as Ideias Nada Brilhantes

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Museu é um lugar de memória, onde estão objetos antigos que ilustram a vida de outros tempos, de outras sociedades. Ali, a história se materializa, para nos ajudar a entender o caminho outrora trilhado.

Museu também é um lugar de arte, produtos da visão do outro, que nos inspiram e nos fazem refletir. É um local de exibição de obras-primas, que imprimem admiração nos olhos de quem vê e orgulho no coração de quem faz.

Museu é muito mais do que uma simples vitrine do passado e suas glórias. Ele é, também, um lugar de aprendizado, onde assimilamos outros ângulos além dos nossos; expandimos nossos conhecimentos sobre diversos assuntos e desenvolvemos a habilidade da empatia.

É possível, então, que um museu seja um local de celebração do fracasso? Um sueco, o psicólogo Dr. Samuel West, acredita que sim e apostou na sua ideia, de fato, brilhante. Assim, foi inaugurado, em 2017, o Museu do Fracasso (Museum of Failure).

Reunindo alguns dos piores produtos já lançados, inclusive de marcas famosas, o museu viaja pelo mundo com o objetivo de estimular um novo olhar para tentativas malsucedidas. Em tempos de empreendedorismo, Vale do Silício e cases de sucessos milionários, é inovadora a atenção ao fracasso do outro como fonte de aprendizado.

É verdade que o autoconhecimento está em voga nos tempos atuais e uma das premissas mais importantes é aprender com seus próprios erros. No entanto, aprender com os erros dos outros ainda é pouco praticado. No senso comum, os erros dos outros não são lições valiosas, mas motivos de piadas.

Todavia, vale lembrar as palavras de Augusto Cury: “Uma pessoa inteligente aprende com os seus erros, uma pessoa sábia aprende com os erros dos outros”.

Ao contrário do que a sabedoria popular diz, nem sempre é preciso “quebrar a cara para aprender”. É possível, sim, evitar alguns tropeços com a ajuda de ideias nada brilhantes. E esse é o objetivo do peculiar Museu do Fracasso.

Além da Neve, das Almôndegas e do ABBA

Quando descobri que o idealizador do Museu do Fracasso era um sueco, pensei: “faz sentido”. O povo sueco, apesar de extremamente bem-sucedido e de muitas vitórias, possui uma cultura forte de humildade e de aprendizado com o outro. Essa é a percepção que tenho após os quase cinco anos em que morei nesse país do norte da Europa.

Não tive a oportunidade de visitar esse museu (uma pena!). Porém, pude conhecer outro museu, muito famoso em Estocolmo, e que também segue a linha “meu passado me condena”.

O Museu Vasa (em sueco: Vasamuseet) é uma homenagem ao navio de guerra sueco de nome Vasa, do início do século XVII, que afundou em sua primeira viagem. O imponente navio, com seus canhões e tripulação, não resistiu a rajadas de ventos ainda no porto e tombou logo após a grande celebração de sua largada. Depois de centenas de anos, ele foi, finalmente, recuperado e hoje é exibido na capital do país da almôndega, sendo o único do seu tempo no mundo.

Quando visitei o Vasa, fiquei imaginando como não deve ter sido a reação do povo que, orgulhoso e alegre, via aquela construção maravilhosa simplesmente cair para o lado e desaparecer no mar, apenas alguns metros à frente. Uma mistura de tragédia (vidas foram perdidas) e comédia pastelão.

Acredito que outras culturas sentiriam vergonha e tentariam esconder o fiasco. A Suécia, por sua vez, criou um museu todo dedicado a isso! Sempre achei esse fato fascinante e me lembro de ter perguntado as opiniões de alguns amigos sobre o referido museu. Eles achavam graça e falavam: “É história”.

Não sentiam orgulho, tampouco uma vergonha gigantesca. Para eles, na história, fracasso é tão natural quanto vitória. Simples assim. Confesso que estranhei e, mesmo achando certa essa linha de pensamento, demorou um pouco para o meu mindset mudar.

Por isso que me parece bem apropriado que o idealizador do novo museu seja um psicólogo sueco. Para mim, o Museu do Fracasso é, de certa forma, uma versão global e mais diversificada do Museu Vasa; uma espécie de “Mamma Mia, here we go again” dos museus.

Fonte: https://www.imgrumweb.com/post/BurHLTYhb1s

“Aprender É a Única Forma de Transformar o Fracasso em Sucesso”

A frase acima está escrita no muro do Museu do Fracasso, deixando bem claro seu objetivo. Mais do que risadas e expressões de espanto, o museu tem a finalidade de estimular o aprendizado e conquistas. 

Cansado de apenas ouvir histórias de sucesso das empresas, o psicólogo Samuel West criou o museu para desmistificar a suposta tragédia por trás de um fracasso. Ciente de que o empreendedorismo é o caminho escolhido por muitos, a exposição é, não somente um alerta de que de nem toda ideia é brilhante, mas, também uma forma de mostrar para donos de negócios que o fracasso não é o fim da linha.

A coleção do museu conta com mais de 60 produtos, entre eles: jogo de tabuleiro de Donald Trump, perfume da Harley-Davidson, Coca-Cola de café e a perturbadora máscara facial com choques elétricos. Além de Helsinborg, na Suécia, essa coleção já passou por Xangai, Toronto e Munique.

Fica claro, na exposição, que todos nós somos passíveis de tropeços. Até as empresas mais renomadas têm seus fiascos. E nem por isso tudo foi perdido. O museu veio para nos lembrar que o fracasso, quando abraçado, pode nos impulsionar para frente. A conquista da excelência vem de acertos e erros; dificilmente é uma linha linear.

Samuel West afirma que, para evoluir e inovar, os empresários precisam aceitar suas derrotas. Que atire a primeira pedra quem nunca errou, não é mesmo?

 

Fim do Tabu: Falemos Sobre Fracasso

A inauguração de um museu focado no que não deu certo é uma marca simbólica. Museus, geralmente, combinam com homenagens e celebrações de vitórias. Ao se criar um espaço dedicado a histórias sem final feliz, possibilita-se o debate sobre o fracasso: um assunto tão delicado (e por vezes ignorado) e fundamental para o desenvolvimento. Quebra-se um tabu.

Não nascemos sabendo falar. Nem andar. Engatinhamos primeiro. Repetimos pedaços de palavras. E vamos, aos poucos, evoluindo. É certo que existem pessoas fora da curva, capazes de tornar ideias em grandes negócios sem maiores problemas.

Mas, se você faz parte da grande maioria como eu, não se sinta mal por não fazer goleada sempre. E, se cair, se não der certo, sacuda a poeira e dê a volta por cima. Até os mais competentes e renomados têm seus dias de luta antes dos dias de glória. E aprender com os outros, além de com seus próprios erros, pode encurtar seu caminho para o sucesso.

Você já usou o erro do outro como fonte de aprendizagem? Algo que você viu ou leu e que te ajudou a evitar problemas? Compartilhe nos comentários sua experiência.

Bônus: A Netflix lançou recentemente “Losers”, uma série que retrata, a cada episódio, uma história de fracasso de um esportista. Só o fato de abordar este tema, já é algo notável. A coragem dos esportistas de se exporem e contarem a sua visão é muito motivadora. Mas, o que eu mais gostei foi que nem toda história teve final clássico feliz.

Sempre que vemos uma história de fracasso ganhar holofote nos esportes, ela vem acompanhada de superação e vitória posterior. “Losers” é mais realista e mais profunda; a série, que tem como princípio o fracasso, nos mostra um novo olhar sobre definições de sucesso.

Depois, escreva nos comentários o que você mais gostou/ te inspirou. 🙂 Spoiler: eu gostei mais de 2 – o da patinadora e o do jogador de golfe.

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