Saber Dizer “Não” É Dizer “Sim”

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Quando vemos alguma criança malcriada, imediatamente, pensamos: “essa aí nunca aprendeu a levar “não” ”. Ela berra, chora. Ela ainda não aprendeu a lidar com a frustração provocada pelo seu desejo não-realizado.
Cobra-se dos pais que ensinem seus filhos a lidarem com o “não” dos outros e com os limites que fatores externos (sociedade, dinheiro, físico) nos impõem. Pouco é dito, e muito menos ensinado, sobre a importância de saber DIZER “não”: para os outros e para si mesmo.
Nós, multipotenciais, adoramos dizer “sim” para tudo! Projetos, ideias. Quanto mais, melhor. Será que é bom mesmo aceitar todas as propostas? Ou “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”?

Mais que frustração, o “não” é uma forma de proteção

Frustrações são inevitáveis. Existe até meme na internet dizendo que o único momento da vida sem estresse e sem frustração é quando estamos no útero. Depois disso, prepare-se para uma sequência interminável de “nãos”.
Fonte: Unsplash
Frustração nada mais é que um desejo ou necessidade não suprido. Afinal, não podemos ter tudo o que queremos. Existem limitações: impostas pelo ambiente, sociedade ou até biológicas.
Por isso, espera-se que os pais ensinem seus filhos a escutarem um “não”. Maria Clara Vieira, em seu artigo da Revista Crescer, alerta para os perigos de se viver a “ditadura do prazer”. Muitos pais têm dificuldades em impor limites a seus filhos e satisfazem todas as suas vontades.
No entanto, os pais devem ter em mente que a vida (e a sociedade) exigirá de seus filhos o entendimento de limites e das consequências que a desobediência aos limites trará. Consequências para os outros e para si próprios.
Daí a importância de se saber ouvir um ”não” e aprender a lidar com frustrações. Mais que isso, devemos aprender que uma frustração momentânea pode ser uma proteção a adversidades ainda maiores caso limites não existam.
Como assim? Vamos pensar: se você nunca tivesse lidado com um “não”. Se não tivesse aprendido que existem limites. Será que, de fato, você teria conseguido alcançar tudo o que planejou?
Se você não tivesse ouvido aquele “não” da professora ao olhar a prova do amigo, você teria se tornado um profissional ético e bem realizados? Se não tivesse entendido que seu dinheiro é limitado e comprado todas as roupas que quer, você talvez poderia dar entrada na compra da sua casa hoje?
Aprender a lidar com o “não” é fundamental no desenvolvimento pessoal. Receber um “não” não traz apenas consequências negativas. O “não” pode ser uma renúncia de um prazer imediato e passageiro para uma recompensa a longo prazo.
 

“Vou ver e te falo”: A expressão brasileira que retrata a dificuldade de saber dizer “não”

Ouvir “não” é ruim. E falar “não”? Você consegue? Negar um pedido do namorado? Uma solicitação de um colega de trabalho? Se você for como eu, talvez você lute internamente cada vez que alguém pede algo que você não quer ou não consegue fazer. Provavelmente, você enrola um pouco até, finalmente, criar coragem para dizer “não”. Ou simplesmente aceita que dói menos!
A verdade é que pouco se fala sobre a importância de saber DIZER “não”. Isso ninguém ensina na escola. E eu só fui pensar nessa questão já adulta e em contato com outras culturas. Antes, eu achava que “enrolar” era natural e que dizer “não” era rude.
Explico: por alguns anos, dei aula para estrangeiros que moravam no Rio de Janeiro. Lembro meu choque quando, ao sugerir uma atividade extra para uma aluna francesa, ela simplesmente me olhou e disse: “não”.
Ela não me deu muitos motivos. Não falou: “vou ver e te falo”. Ela escutou com atenção o que falei, analisou se queria/poderia fazer e me deu a resposta. Tão fácil, né? Ela não foi grosseira. Ela apenas foi honesta comigo e com si própria. Sabendo que não iria conseguir fazer a atividade, ela recusou. Ponto.
Foi aí que me dei conta da dificuldade brasileira de dizer “não” até para coisas simples. Quantas vezes alguém te convida para algo que você sabe que não irá e você responder com: “vou ver e te falo”. Como se a gente achasse que falar ”não”, recusar um convite ou pedido, fosse magoar o outro.

Em sua coluna, Paulo Coelho escreveu:

“E nos achamos generosos, compreensivos, educados. Porque o “não” tem fama de maldito, egoísta, pouco espiritual.
Cuidado com isto. Há momentos em que – ao dizer “sim” para os outros, você está dizendo “não” para si mesmo.”
Muitas vezes, preferimos causar desconforto a nós mesmos a desagradar alguém. E não entendemos que, ao dizer “sim” ao outro, dizemos “não” ao nosso direito de nos sentirmos felizes com nossas próprias escolhas.
Somos seres sociais e precisamos, sim, ter flexibilidade e empatia para construirmos relações. No entanto, somente dizer “sim” para todos não te faz uma pessoa legal. Isso te transforma numa pessoa insegura e dependente da aprovação dos outros.
Queremos ser aceitos e queridos pelos outros. Mas precisamos nos aceitar e querer nossas escolhas primeiro. Você não é uma pessoa má se não fizer tudo o que te pedem. Reconheça seus limites e vontades e saiba dizer “não”.
 

Mais vale um pássaro na mão do que dois voando?

Fonte: Unsplash
Eu citei lá no início do texto que nós, multipotenciais, tendemos a querer a dizer “sim” para tudo, principalmente para projetos profissionais. Gostamos da variedade, somos inquietos e monotonia é quase xingamento.
Por mais que tenhamos habilidades e interesses diversos, a verdade é que somos uma pessoa só. Por isso, fazer bem mais de uma atividade profissional simultaneamente é uma tarefa difícil, que exige muita disciplina e organização.
Ser difícil não é ser impossível. Acredito que a grande chave para o sucesso é ser realista com o número de atividades que você consegue realizar. Para isso, uma boa dose de autoconhecimento para identificar seu limite se faz necessária
Essa vontade de dizer “sim” para todos os projetos esconde a angústia da renúncia da escolha. Aqui no blog, a Renata Lapetina já escreveu justamente sobre isso.
No post “ A Técnica do Sorvete: Como Ter Mais Foco e Facilitar as Escolhas”, ela fala que ter muitas escolhas pode parecer ótimo, mas também pode sobrecarregar e paralisar o indivíduo. Por isso, focar naquilo que você mais gosta e mudar conforme o tempo, pode ser uma excelente tática de produtividade para os multipotenciais.
O que temos que ter em mente é que as escolhas não são para sempre. Saber disso diminui muito a angústia de escolher. Você pode mudar de ideia. Mudar de direção. Está tudo bem.
O que dificilmente dará certo é você colocar um pé de cada lado da cerca. Nesse caso, acho que é mais capaz de você levar um tombo e aparecer nas Vídeo Cassetadas!
 

Dizer “Não” É Dizer “Sim”

A nossa felicidade é encontrada quando conseguimos satisfazer nossos desejos de forma saudável. E isso só é possível se soubermos dizer “não” para os outros e para nós mesmos.
Por isso, mesmo com toda a conotação negativa que essa curta palavra provoca, dizer e ouvir “não” são atitudes muito importantes para o bom desenvolvimento mental. Você não tem que sempre agradar todo mundo. Tampouco precisa fazer tudo.
Está tudo bem em dizer “não”. Tente. Respeite seu limite. Escute sua vontade. Pensar em si mesmo não precisa ser egoísmo. Egoísmo é SOMENTE pensar em si mesmo, assim como APENAS pensar nos outros pode ser devastador. Tudo é uma questão de equilíbrio.
Como boa filha dos anos 80, eu adoro cultura pop. Por isso, encerro o texto com parte da letra da música do Kid Abelha:
“Dizer não é dizer sim
Dar um não ao que é ruim
É mostrar o meu limite, é mostrar o meu limite…
Não é preciso ficar inseguro
Não é possível concordar em tudo…”
Fonte: Unsplash
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