Mudança de Carreira: Os Desafios Velados de Recomeçar Após os 30

Tempo de leitura: 8 minutos

Imagine: aquela mudança de carreira que você lutou para conseguir, aconteceu! Esse era o grande desafio, certo?

Agora, você se dedica integralmente na área que você havia sonhado tanto. Você está cheio de motivação e com muita vontade de mandar bem naquilo que você sabe que você quer e leva jeito para fazer.

Você deve ter achado que, depois de tantas dúvidas e angústias antes da decisão da mudança, a parte mais difícil tinha ficado para trás, não é? Que tudo iria se ajeitar, afinal “quando se trabalha com o que se ama, nenhum dia é trabalho” e “amor pelo o que se faz é o que faz a diferença”. Não é isso que falam?

Sinto te informar que esse é só o começo da sua nova história profissional. Todo começo é difícil e recomeços podem ser ainda mais desafiadores. E, mesmo com todo amor, propósito e motivação que possam estar envolvidos, é muito difícil se reinventar. Até mesmo para um multiprofissional, que tem em seu DNA o gosto por mudanças e recomeços.

Por isso estou aqui. Para dividir um pouco da minha experiência com mudanças de carreira. Como multiprofissional como você, adoro uma novidade e me sinto estimulada com novos desafios profissionais. Mas, também, já me senti muito ansiosa e frustrada durante o processo de mudança.

Muitos falam sobre o que é preciso para trocar de careira. O que se deve levar em conta, os prós e os contras. Este texto é sobre o que vem depois.

Escrevo essas linhas para tentar dar luz ao que acontece depois que conseguimos o primeiro objetivo. Escrevo para mostrar, sem falsas demagogias, as dificuldades que já passei e, quem sabe, contribuir para essa segunda etapa do sonho da mudança de carreira.

De sênior a júnior: deixando o ego de lado

Esse, para mim, é um dos aspectos mais difíceis na mudança de carreira. Curiosamente, é o que menos se debate abertamente. Afinal, quem gosta de admitir que algo afeta seu ego?

No conceito popular, ego se tornou sinônimo de vaidade exagerada. Pessoas com ego elevado costumam achar que estão certas sempre, o que é, de fato, irritante.

O ego, essa vaidade narcísica, muitas vezes vem do acúmulo das nossas experiências. Todos nós temos um ego, esse ego de vaidade do qual me referi, em algum grau, referente a algum tópico. Alguma coisa que a gente viveu e por isso achamos que “sabemos mais” que outros.

Particularmente, eu não me considero uma pessoa prepotente e estou sempre disposta a aprender. Mesmo assim, precisei de uma “adaptação mental” quando recomecei em outra área.

Não importa se você era uma gerente de hotel sênior. Se for recomeçar numa empresa em Marketing, provavelmente, você irá entrar como analista. E isso exige uma postura de humildade que nem sempre é fácil.

A sociedade, de certa forma, ensina que pessoas experientes sabem mais e os jovens devem recorrer aos mais velhos. Anciões eram sábios. Experiência é uma forma válida de conhecimento aceita por muitas culturas e gerações.

Por isso, quando a situação se inverte no campo profissional, ou seja, os mais experientes “na vida” são os menos experientes em um setor, a “ordem natural” é questionada. Lidar com o que “foge do comum” sempre é desafiador.

Então, são necessárias uma boa dose de adaptação por parte desses experientes juniores e, também, de respeito e empatia dos jovens seniores do outro lado para que esta nova forma de relação dê certo. Nem todo mundo é consciente dessa mudança de perspectiva e isso pode dificultar ainda mais a transição.

Sejamos sinceros: por mais que achemos cada vez mais comuns as mudanças de carreira, eu não acredito que alguém tenha como objetivo recomeçar profissionalmente aos 37 anos, como foi meu caso, abandonando uma carreira já encaminhada.

O “natural” é ir de júnior para sênior, e não o inverso. Recomeçar em outra área exige muita inteligência emocional para não se sentir fracassado. Tem que ter força interior para escutar críticas e questionamentos, e muita certeza do que se quer.

É fácil repetir o discurso de “adoro aprender” e “não tenho problema nenhum em começar de novo”. Difícil é admitir que a sua perda temporária de status e respeito de sênior incomoda algumas vezes.

A gente sabe que está aprendendo, mas, ao mesmo tempo, sente que sabe tanta coisa. Ser um júnior sênior é uma posição cheia de contradições e quebras de certezas e isso pode assustar.

Não tenho tempo a perder

“Só quero saber do que pode dar certo. Não tenho tempo a perder.” – já cantavam os Titãs. Acredito que muitos de nós soframos desse mal da ansiedade. Querer tudo ao mesmo tempo. E rápido.

É neste tópico que gostaria de compartilhar algo que aprendi na minha última mudança de carreira. Não importa a sua sede por aprendizagem, a sua ansiedade para dar conta de aprender tudo e até sua facilidade em aprender. Para aprender, é necessário foco.

Foi aqui que me perdi. Talvez, tenha sido meu maior erro na minha última mudança de carreira (sim, já mudei algumas vezes) para o Marketing. Tentar aprender tudo ao mesmo tempo achando que desta forma eu estaria acelerando o processo. Ledo engano!

Era tanta coisa nova para aprender e eu sentia que estava “pra trás” e “não tinha tempo a perder”. Então, mergulhei em tudo que eu via, os mais diferentes assuntos e temas. Lia artigos e via webinars, tentando absorver a maior carga de conhecimento mais rápido possível.

Mas fazia tudo isso sem planejamento, sem plano. Só na base da “raça e da vontade”. Depois de um mês, a frustração bateu. Parecia que eu não estava andando para frente. Foi aí que percebi: ao tentar abraçar o mundo, eu não consegui segurar nada.

Então, mudei minha estratégia. Escolhi um macro tema por mês e um mini tópico por semana. Isso de acordo com o que era mais urgente para o meu melhor desempenho. Quando você está inundada em possíveis conhecimentos, você tem que saber dar prioridades.

O que quero dizer é para acelerar o processo em etapas. Mas, não pode também deixar de acelerar porque o mundo não para enquanto você aprende. É ser rápido e certeiro. Difícil, não é mesmo?

Voltando à estaca zero?

Mas antes de se desesperar, quero deixar claro que mudança de carreira NÃO SIGNIFICA recomeçar do zero. Especialmente se você é multipotencial.

Uma das habilidades mais fantásticas do multipotencial é justamente conseguir combinar conhecimentos de diferentes áreas, levando, assim, valiosa bagagem para o próximo desafio. Tudo que você sabe e viveu pode ser aproveitado, de outra forma.

Por exemplo: no Marketing, um dos objetivos é despertar interesse em um produto ou serviço com objetivo final de venda. Para isso, é importante conseguir se conectar com seu público-alvo e disparar gatilhos que estimulem ações e associações.

Sou formada em Psicologia e já trabalhei em vendas e pude levar muito dessas minhas experiências anteriores para a área nova de atuação. Portanto, foi um recomeço, com muitas novidades, mas não foi do zero.

O segredo é conseguir associar e aplicar diferentes conhecimentos em uma situação.

No entanto, também será preciso uma boa auto-avaliação do que você realmente sabe e o que acha que sabe. As áreas são diferentes e talvez você não consiga aplicar um conceito exatamente do mesmo jeito em áreas diferentes.

Seus conhecimentos prévios devem somar e não te cegar. Você não sabe tudo, mas também não é que não saiba nada…

Dá para se divertir na mudança de carreira?

Não é fácil recomeçar depois de um tempo na estrada profissional. Aqui neste texto optei por destacar as grandes dificuldades que encontrei. Mas é claro que nem tudo é angústia e estresse. Dá pra se divertir nos recomeços também!

O filme “Um senhor estagiário” traz com humor essa situação. Por isso, termino esse texto com o trailer do filme pra gente rir um pouco! E também nos lembra que há desafios em todos os lados. Ou você acha que é fácil ser o oposto: ser jovem e estar em posição de liderança?

Ah! Se você estiver passando ou já passou por essa situação, compartilha com a gente nos comentários.

 

Imagens: Doran Erickson | Chris Lawton | Lindsay Henwood | Gia Oris | Unsplash

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