O Que o Filme Divergente Pode Ensinar Sobre Não Se Limitar?

Tempo de leitura: 8 minutos

o que o filme divergente pode ensinar sobre não se limitar

Alerta de spoiler: Se você ainda não viu o filme e não quer saber nenhum detalhe sobre o enredo, não continue a ler esse texto! Depois de ver, volte aqui para uma análise de como divergentes e pessoas multipotenciais e generalistas têm muito em comum.
“Nós temos sorte por estar na cidade. Dizem que a guerra foi terrível, que o resto do mundo foi destruído. Nossos fundadores construíram um muro para nos manter seguros, e nos dividiram em 5 grupos, facções, para manter a paz.

Os inteligentes, aqueles que valorizam o conhecimento e a lógica, estão na Erudição. Eles sabem tudo. A Amizade cultiva a terra. Eles são gentis e buscam harmonia, sempre felizes. A Franqueza valoriza a honestidade e a ordem. Eles falam a verdade, mesmo quando você gostaria que eles não falassem. E tem a Audácia. Eles são nossos protetores, nossos soldados, nossa polícia. Eu sempre achei eles maravilhosos. Corajosos, destemidos e livres. Alguns acham que quem é da Audácia é louco, e eles são um pouco mesmo. Minha facção é a Abnegação. O outros nos chamam de “inflexíveis”. Nós levamos uma vida simples, altruísta, dedicada a ajudar os outros. Nós até alimentamos os Sem Facção, aqueles que não se encaixam. Por sermos servidores públicos, nos é confiada a administração governamental. Meu pai trabalha junto com nosso líder, Marcus. Tudo funciona. Todos sabem o lugar ao qual pertencem.

Menos eu.”

Esse é o início do primeiro filme da série Divergente, baseada nos livros de Veronica Roth. Nele, a gente tem uma ideia de como funciona uma sociedade futurista distópica, onde cada habitante ocupa um lugar bem específico. As facções moram em lugares distintos, realizam trabalhos próprios e não existe muita interação entre pessoas de facções diferentes, tirando aqueles que estão no poder.
Tudo funciona perfeitamente nessa sociedade super especializada onde cada um tem seu papel. Mas, desde o começo, a gente percebe que nossa personagem principal e autora do monólogo inicial, Beatriz (ou Tris), não se encaixa. Ela está incomodada.
O começo da jornada de Tris é a cerimônia de escolha da qual todos os jovens precisam participar. É feito um teste de aptidão e cada um precisa decidir em qual facção vai ficar para o resto da vida. Sim, uma vez que você escolhe uma facção, você não pode mudar de ideia, nem voltar atrás. Com o perigo de se tornar um Sem Facção, aquele que não tem nenhum papel nessa sociedade e, por isso, é excluído.
Aí começa a complicação porque, além de estar incomodada com sua própria facção, seu papel na sociedade e ter curiosidade pela facção Audácia, Tris descobre pelo teste de aptidão que ela não se enquadra em nenhuma das categorias existentes, ela é divergente.

O que significa a palavra divergente?

“é um adjetivo (…) [que] qualifica algo ou alguém que se difere, discorda, se opõe e se afasta dos demais indivíduos que pertencem ao seu grupo.
A ideia de divergente está relacionada com tudo aquilo que se opõe. Uma pessoa divergente é aquela que não se enquadra no contexto de determinado grupo ou situação, tendo uma opinião diferente dos outros e não concordando com facilidade com pontos de vista alheios aos seus.”

(Fonte: Significados)

Se identificou com essa coisa toda de ser divergente? Pois é.

O QUE A MULTIPOTENCIALIDADE TEM A VER COM ISSO?

Desde que comecei a criar conteúdos e trabalhar com multipotenciais, toda essa galera que tem vários interesses e quer fazer várias coisas diferentes, muitos comentaram sobre esse filme. Ainda não tinha visto e resolvi conferir o porquê dessa identificação toda. E realmente, tem tudo a ver com a gente!
Deixando os exageros narrativos e a ficção científica de lado, vivemos em um mundo mais ou menos dividido em papéis. Acredito que isso esteja mudando e que estamos em um momento de transição, mas de qualquer forma, as nossas “facções” ainda estão aí. Sentimos a obrigação de escolher uma delas, e nos encaixar perfeitamente em um rótulo: “sou arquiteto”, “sou jornalista”, “trabalho como dermatologista”. Se não conseguimos nos identificar com um rótulo desses, é o fim, podemos ser como aqueles “Sem Facção” que não sabem o que querem da vida, passam fome, são isolados e jamais vão atingir qualquer tipo de “sucesso”.
Outro momento do filme totalmente “baseado em fatos reais” é a cerimônia de escolha da facção. Lembra ou não lembra o fatídico momento do vestibular e todas aquelas angústias? É o momento de uma escolha super impactante para o resto de nossas vidas e acontece em uma idade tão jovem, a maioria ainda não tem noção de como as coisas funcionam no mundo. A sensação é de que é uma escolha sem volta. Precisamos acertar ou acertar. Se não, temos que viver com o arrependimento para o resto da vida.
Por isso, toda essa ideia de uma sociedade que rotula, especializa e limita as pessoas que vivem nela é similar com muita coisa que vivemos aqui no mundo real. E, dentro disso, entra esse conceito de “ser divergente”, ser diferente, se opor ou não se enquadrar no contexto. O divergente é o generalista, o multipotencial, dentro dessa história.
Tris é divergente, e isso significa que ela poderia escolher qualquer uma das facções porque pode se enquadrar em todas elas. Ela escolhe a Audácia, que é a facção que sempre chamou sua atenção. Mas, ao mesmo tempo, ela não é cem porcento como a maioria das pessoas ali e isso a atrapalha em vários momentos. Ela tem facilidade em muitas coisas em que um verdadeiro membro dessa facção não tem. E ela tem dificuldades que não são comuns para quem é da Audácia.
No filme, ser divergente também significa que os governantes daquela sociedade não querem que você exista. Divergentes são disruptivos, eles não se encaixam no status quo e podem prejudicar a ordem. Aqui no mundo real, os divergentes multipotenciais também quebram paradigmas, são inovadores e não se conformam com as coisas como elas são. Querem fazer diferente e ser diferentes (mesmo que ainda não tenham percebido isso). Não chegamos nem de perto à perseguição que ocorre com Tris, mas também incomodamos àqueles mais tradicionais e avessos a mudanças.

 

POR QUE PRECISAMOS NOS DEFINIR COMO UMA COISA SÓ?

Conforme a história se desenrola, descobrimos que o interesse romântico de Tris, Quatro, também é divergente. Ela descobre que ele tem uma tatuagem nas costas com o símbolo de todas as facções, e quando pergunta por que ele tem todas elas tatuadas, ele responde:
“Eu não quero ser apenas uma coisa só. Não dá. Eu quero ser corajoso, e eu quero ser altruísta, inteligente, e honesto e gentil. Bem, ainda estou trabalhando em ser gentil.”
Essa ideia, expressa nessa frase, é a que mais me chama atenção no filme. A contestação de definir pessoas por um rótulo, uma facção, por uma escolha para a vida inteira. A contestação de que a gente precisa ser uma coisa só, super bem definida, para ter algum valor na sociedade.
O que o filme mostra, através de ação e emoção, é que tem gente que quer ser mais de uma coisa só, e que isso é bom. É legal perceber que o divergente tem um papel muito importante na história daquela sociedade fictícia, e na nossa também! O papel de questionar, de ser diferente, de lutar contra as pessoas que querem uniformizar, limitar e desumanizar o outro.
Por isso, a grande lição do filme Divergente, para mim, é que você não precisa se limitar e se definir como uma coisa só para ter valor dentro de uma comunidade. Aquele que é diferente, que discorda e que pensa de outras formas é tão importante quanto aquele que se encaixa perfeitamente nas funções existentes. Todos têm sua importância, seu valor e são essenciais para que a gente possa viver em uma sociedade justa, inovadora e aberta a mudanças quando elas são para melhor.
Se você viu o filme e se identificou com Tris e Quatro, transbordando a ficção e vendo similaridades entre eles e sua vida real, você não foi o único. Está tudo bem ser divergente! Inspire-se neles, em sua coragem e sua força, para aceitar seu próprio jeito de ser e viver de acordo com a sua verdade. Porque existe espaço para todo mundo. E é sua responsabilidade oferecer para o mundo o que você tem de melhor.

 

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2 Comentários


  1. Muito bom! Eu assisti apenas o segundo filme, na casa de uma amiga, ela já estava assistindo quando cheguei em sua casa, então não entendi muito bem. Mas, me interessei em ler os livros e assistir os filmes ao ler este artigo e buscarei fazer isso.

    “Eu não quero ser apenas uma coisa só. Não dá. Eu quero ser corajoso, e eu quero ser altruísta, inteligente, e honesto e gentil. Bem, ainda estou trabalhando em ser gentil.”
    Esse trecho me lembrou de um trecho do livro Peter Pan, onde há uma descrição sobre as fadas; “As fadas têm que ser ou uma coisa, ou outra, pois, como são tão pequenas, infelizmente só têm espaço para um sentimento de cada vez.”
    Não somos pequenos como uma fada e, apesar de nosso coração não ser tão grande fisicamente, nele cabem muitos sentimentos e desejos, então não precisamos e nem devemos ter essa limitação.

    Há alguns dias atrás, ainda me sentia ser um problema, por gostar de muitas coisas e não querer me limitar em nada. Sempre ouvi que não podia “agarrar o mundo todo de uma vez”. Mas, percebi que não tenho nenhum problema e que posso ser feliz desse jeitinho que sou. Claro, ainda reconhecendo a questão do tempo e tendo que administrar tudo isso, mas não necessariamente ter que deixar alguns sentimentos e desejos de lado.

    Muito obrigado por compartilhar! 🙂

    Responder

    1. Oi Fabrício!
      Adorei esse trecho do Peter Pan sobre as fadas!! Concordo com você. Vamos juntos nesse caminho (que nem sempre é fácil) de não se limitar jamais 🙂

      Responder

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